CRÍTICA – Sensação de ódio de estar estagnado: Bacurau me move

Assim, quase duas semanas e meia após a estreia (29-08), desentalei algumas das “facas atravessadas” a minha garganta e decidi escrever sobre Bacurau, um filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que resinificaram o conto e por meio de um “cavalo de Tróia”, fizera inalar às narinas que insistiam em sentir cheiro bom em carniça: Bacurau me move, das tripas ao coração, me dá a anciã sensação de poder e me faz querer gritar ao mundo que estamos de pé, de fronte a mirar a liberdade. Mas hoje estamos sendo ATACADOS e devemos reagir.  Poucos apontamentos precisos, pois ainda estou digerindo a obra brasileira em questão.

O filme é um western moderno, se apoia nos pilares da usual falta da tecnologia, esbanjando seu uso! Traz para sua narrativa pontes entre quem vive e quem morre, quando em determinado momento remove do mapa geográfico a localização do município de Bacurau.  Dessa maneira também apresenta o povo que trai o povo para agradar os ‘gringos’. Mostra a fuga do covarde e sua morte em emboscada: “Foram abatidas duas presas, sendo um macho, uma fêmea…”, propõe reflexão sobre o ser brasileiro; sobre quem é criminoso e sobre quem é mandante do crime.

A estética nada convencional, tem fotografia contrastada e se mostra ao espectador à sangue frio, porém a seu tempo, de modo que mesmo sob ataque ou sob tentativa de suborno o povo se esconde e apenas reage após longa apresentação das situações, que se fazem necessárias, a se dar pelo tema proposto.

BACURAU 

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Reprodução: ‘Bacurau o Filme’

O filme começa apresentando o seu único personagem “Bacurau” e o nordeste, – se for, vá na paz”, lembro-me também de Riobaldo Tatarana no Grande Sertão: Veredas: “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…”, vale ressaltar a numerologia da distância (KM) impressa na placa que nos leva à caminhos tortuosos.

O caminhão de água, sagrado símbolo do povo nordestino, tem a tarefa de nos levar até a cidade, – No interior do veículo dois personagens, uma médica e o motorista falam sobre liberdade de Lunga, procurado sob recompensa sem nem mesmo se saber porquê. Mais tarde o filme nos mostra quem é Lunga, revelando a importância deste na narrativa.

O caminhão segue em direção a Bacurau, no caminho os personagens fazem uma parada ao ´pé de uma árvore’, para observar uma ponte que está obstruída, são ameaçados com tiros para cima durante a observação, nada se sabe ainda sobre aquilo, sobem no caminhão e seguem viagem passando por acidentes e caixões ao longo do trajeto, até que chegam a cidade.

Após a morte de uma importante moradora, uma médica amiga embriagada surta. Tudo isso você só entenderá de fato assistindo Bacurau. A pequena sinopse que faço sobre o filme é pouco precisa a se dar a dimensão das histórias apresentadas.

Mais tarde o vilarejo tem seu sinal de internet cortado, após a visita de dois forasteiros que dizem estar fazendo trilha. Uma tropa de cavalos da fazenda vizinha invade a cidade durante a madrugada. Os moradores recolhem os animais e decidem levá-los aos donos, no entanto, ao irem até a fazenda notam algo errado. Um morador que pilota moto pelas ruas de terra avista uma espécie de nave ‘extra-terrestre’, no entanto ele sabe que trata-se de um drone disfarçado.

ATUAÇÕES 

Pode ser até que tenha alguém com o olhar que transmite mais desumanidade que os olhos de Udo Kier, mas esse suposto ator não foi escalado para o filme, o que não dá vaga para o olhar mais sangrento do ator alemão que soma atuações em mais de 45 obras cinematográficas espalhadas pelo mundo. Sagra-se em Bacurau aos 75 anos. Sua atuação é inquestionável, peculiar e de uma precisão inacreditável.

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O ator alemão Udo Kier, em Bacurau.

Udo divide o terror causado pelo o olhar com o ator Thomas Aquino, “Acácio”, conhecido como “Pacote, o Rei do Teco”, pistoleiro que executa com limpeza e sem pressa e é uma espécie de Billy the Kid local, com os olhos intensos de quem já viu mais coisas do que suporta contar.

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O ator Thomas Aquino, “Acácio” em Bacurau.

E também com o ator Silvero Pereira, o Lunga, a criatura feral procurada, que vive emboscado no mato, uma espécie de barragem desativada, quando convocado cheio de ódio e fome ele emerge no vilarejo um mad-max pós-apocalíptico com olhos que já cortaram o cordão umbilical com qualquer zona-do-conforto histórica.

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O ator Silvero Pereira Com unhas pintadas, bijuterias, lápis no olho e cabelo descolorido e com aplique, Pereira vive Lunga, um misto de Robin Hood com Lampião que sai em socorro de uma comunidade rural ameaçada por estrangeiros.

SUB-DIVISÕES 

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Atriz Sônia Braga, de Bacurau.

A narrativa ao meu ver se divide em três partes, apresentando o vilarejo, seus desenroles, logo em seguida apresenta o agressor, e subsequente a isso o conflito entre as partes, onde mesmo que a parte que ataca tendo tramado um “golpe perfeito”, o povo sob seu estado de união e revolta se orienta pela sobrevivência e usa o espaço sagrado da cultura histórica para acolher mais um pedaço da história daquele vilarejo. Infâncias são ceifadas, animais são atacados e até mesmo quem estaca mata os seus.

O filme rompe a ideia disseminada de apresentar os pobres como figurantes passivos em uma sociedade para lá de injusta. Vejo e sinto influência de Glauber Rocha, de Tarantino, a modernidade de de Black Mirror, há um pouco da sagacidade do gibi e também conservadas as manobras narrativas de Kleber e Juliano.

Bacurau faz com que expectador sinta o sangue do irmão e da irmã pingando nas lentes. A narrativa nos leva ao povo em sua naturalidade e estranheza, me faz citar “Macunaíma”, em suas interpretações pouco econômicas. Uma inegável obra de arte atemporal e reflexiva, um marco na história do povo brasileiro e do cinema brasileiro.

Assista Bacurau. E abandonemos o estado de estagnes, vamos à luta pelos nossos direitos.

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