Os vereadores de Campo Grande: Camila Jara (PT); Valdir Gomes (PSD) e Ronilço Guerreiro (Podemos) - da esquerda para direita.

Projeto feito na surdina quer ‘tomar’ único espaço da Cultura em Campo Grande

A prefeitura de Campo Grande (MS) encabeça a tentativa de passar na Câmara Municipal um projeto que tomará dos artistas o único espaço cultural da Capital sul-mato-grossense: o Armazém Cultural, que fica na Esplanada Ferroviária, Centro​. Atualmente, utilizado para diversas atividades, de apresentações ​a exposições. Eis a íntegra do projeto:

O projeto em questão, propõe transformar o Armazém Cultural em um Parque Tecnológico de Inovação, que se chamará ‘Parque Digital’. O Executivo diz que tem R$ 90 milhões em Caixa para fazer reformas e levar empresas para o local. 

Atualmente o prédio público cobiçado acolhe o Armazém Cultural, a Plataforma Cultural e a Galeria de vidro. “Esse projeto nos chegou de surpresa e pronto, encaminhado, com a justificativa de que queriam nossa opinião, participação e apoio. Fomos prontamente contra a conduta e não em si contra o projeto que pode ser implementado em diversos logradouros obsoletos da Capital como a antiga rodoviária e outros”, disse Roberto de Figueiredo, ex-integrante do Grupo de estudo do Parque Digital.

“Quem fala que não esta sendo usado não acompanha a vida artística de Campo Grande. Exposições, feiras, peças de teatro e dança, músicas em local coberto, exposição de flores”, enumera outro artista. (Entenda, abaixo).

PARQUE DIGITAL

Um frame do projeto intitulado ‘Parque Digital’ a ser implantado em prédio da Cultura em Campo Grande, para usufruto de empresários.

Segundo o documento que a reportagem teve acesso, o complexo abrigará 7 prédios divididos em Museu Imaginativo, Estação Digital, e o Complexo da Rotunda que agregaria 5 das edificações citadas. “Além de 4 Hubs de Inovação em bairros distintos”, promete na introdução. 

A proposta de uma Estação Digital no local – daria condições para a criação de um ambiente de integração das instituições de pesquisa, universidades e empresas públicas e privadas. Aqui, estão os maiores interessados em ‘tomar’ o prédio. Eles chamam esses interessados de Instituições de fomento — o Grupo Empresarial ‘S’: Sebrae, Sesi e a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems). Para o projeto, havia inicialmente, a previsão orçamentária de R$ 55,7 milhões, que já saltou para R$ 90 milhões.

CLASSE É CONTRA USAREM O PRÉDIO

De acordo com artistas da Capital, apesar de um “bom projeto”, a iniciativa herdada da administração de Marquinhos Trad (PSD), agora sob responsabilidade da prefeita Adriane Lopes (Patriota) deveria usar espaços que não são ocupados pela Cultura. Por hora, o projeto é visto como uma grande ‘manobra’ para tomar o único espaço cultural que ainda pode ser solicitado para uso gratuito por artistas campo-grandenses.

Com mais de 1 milhão de habitantes, a capital de MS não tem sequer um teatro público disponível para ensaios e atividades gratuitas à população. Havia o Teatro José Octávio Guizzo do Paço Municipal, que foi tomado há 32 anos dos artistas e transformado em uma sala de reuniões e pronunciamentos do Executivo. Apesar disso, o prédio anexo à Prefeitura, ainda carrega o nome de ‘Teatro do Paço’.

Teatro do Paço em Campo Grande foi tomado dos artistas há 32 anos. Foto: TeatrineTV

Ironicamente, em 23 de novembro de 2021, o prefeito Marquinhos Trad reuniu-se no Paço municipal com os 42 membros do Grupo Especial de Estudo para o Parque digital, de gente de vários órgãos, públicos e privados e apenas 2 representantes da Cultura: Carla Aparecida de Campos Melo e Rose Aparecida Borges (Conselho Municipal de Políticas Culturais – CMPC) e Roberto de Figueiredo, do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico – CMPPH. Esse último anunciou nos grupos colegiados e do Fórum, que apesar de terem inserido os 2 agentes culturais no projeto, eles foram amplamente ignorados.

“Infelizmente tudo que colocamos não foi colocado em prática e eles não tem pretensão alguma de mudar a Estação Digital de local. O Armazém vai ser tomado com a desculpa de estar desocupado e não estar sendo utilizado e se deteriorando. Falas que eu escutei na reunião a qual fui convidada a estar presencialmente. Me desculpem dizer isso, mas parece que quem está gerindo esse processo não tem noção da produção cultural da nossa cidade”, lamentou Carla.

MANIFESTAÇÕES NA CÂMARA

Esse é Valdir Gomes, durante a 22ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Grande nesta terça-feira (3.mai.22). Foto: Izaias Medeiros | Câmara Municipal

O vereador Valdir Gomes (PSD), usou a tribuna da Câmara nesta terça-feira (3.mai.22) para alertar os colegas e o presidente, Carlão (PSDB), que caso o projeto do Parque Digital ‘tome’ o Armazém, os artistas ficarão com ‘0’ espaços para atividades que geram suas rendas. “Nós temos aqui na cidade poucos espaços para serem usados pela Cultura e aquilo que nós temos, eles querem retirar. Eu venho a esta tribuna, dizer a esses vereadores que, existe um projeto em andamento, projeto este que abrange o Armazém Cultural. O Armazém Cultural é o único espaço hoje que existe para os artistas da cidade, meu presidente Carlão. Nós não podemos admitir, nós não podemos aceitar, entrar… porque que não pegaram a rodoviária, que tem sala da prefeitura lá? Por que está destruída? Vai continuar destruída… A, vai receber milhões de dinheiro. Aplicam-se esses milhões lá [na rodoviária]”, disse ele citando o Hotel Gaspar, o Teatro Glauce Rocha, Aracy Balabanian e Horto Florestal que estão abandonados pela administração.

Veja o vídeo a partir do trecho da fala de Valdir Gomes – no 1:05:00 da live.

“Aí fala: ah, vai sair Belas Artes… é um sonho invisível o Belas Artes. Agora, é muito fácil pegar uma coisa que está pronto e querer dividir. Para onde vão as feiras de artesanato? Para onde vão os desfiles que existem? Para onde vão as apresentações? Porque teatro, para alugar, só temos um, e é R$ 8 mil para alugar”, apontou Gomes.

“Eu acho que essa Câmara não pode se curvar porque vem milhões. Aplica milhões na rodoviária que está caída, é o pior cartão que tem em Campo Grande. A rodoviária antiga é um câncer, uma cracolândia de São Paulo aqui na Capital e ninguém resolve. Aí fala que tem projeto, que está vindo projeto e aí, até quando vai?”, questionou.

Gomes reforçou que a verba pode ser destinada para um outro local. “Inclusive já tem verba alocada, com cursos que já estão suspendendo, lá. Arrume outro local. Essa Casa de Leis não pode aceitar. A única coisa que nós não temos que aceitar é usar aquele espaço com outras atividades que não sejam da Cultura. A Cultura já não tem espaço, é um absurdo”, argumentou Gomes.

Essa é a vereadora Camila Jara, durante a 22ª Sessão Ordinária nesta terça-feira (3.mai.22). Foto: Izaias Medeiros | Câmara Municipal

Pedindo a fala, a vereadora Camila Jara (PT) lembrou que não é novidade que o Executivo sufoca o setor Cultural na Capital. “Que o município de Campo Grande sufoca a parte cultural nós já sabemos. Nós não temos nenhum teatro a disposição do público a não ser o da Universidade Federal. Nós batemos, mandamos a Guarda Municipal bater nos nossos jovens que resistem e fazem Cultura de Rua. Nós não pensamos e não cobramos seriamente, até hoje, para que o Centro de Belas Artes fosse entregue e devolvido para a população… então, nós temos sérios problemas para a Cultura e inclusive, no orçamento que nós votamos nesta Casa esse ano, nós tivemos uma redução do orçamento do valor destinado para projeto cultural. Por quê? Porque se tem medo da resistência, porque se tem medo de que a cultura faz a gente pensar e a questionar tudo isso que está posto. Porque se entende que Campo Grande é uma cidade conservadora e que tem que penalizar a todos os empresários que resistem e fazem cultura nessa cidade”, disparou. Em controversa, Jara posicionou-se a favor da instalação do Projeto ‘Parque Digital’ no Armazém. A vereadora petista sustentou que é preciso fazer uma disputa para que o projeto sirva à Cultura e aos empresários do setor digital interessados. “Esse projeto destina, inclusive, uma área maior para produção e para o fomento cultural no município de Campo Grande. Se a gente analisar o projeto, aquela parte da Rotunda, que hoje está abandonada, seria destinada toda, para, segundo os elaboradores do projeto, para os espaços culturais”, disse.

Apesar de o projeto ter sido levado ao conhecimento dos artistas apenas agora, o vereador Ronilço Guerreiro (Podemos), disse que o projeto já tem 1 ano de existência e que já teve até lançamento. “Há um ano estamos acompanhando esse processo como um todo. A vereadora Camila Jara esteve em Recife junto com o secretário Terra. Depois nós tivemos algumas reuniões: eu, Camila, Otávio Trad [PSD]. Teve o lançamento desse parque tecnológico que foi lá no Shopping Bosque dos Ipês, foi a pedra fundamental”, contou. E nesse evento, Marquinhos Trad ainda era prefeito e chegou fazer um vídeo curto para anunciar o que já seria o ‘Parque Tecnológico’ – nota-se a exclusão total da Cultura no empreendimento. Veja

Vídeo divulgado após anúncio no início de fevereiro 2022, sem terem consultado a classe artística. Vídeo: Prefeitura de Campo Grande

“Na verdade, o que existe é um conceito desse Parque Tecnológico. Conversando com o Rodrigo Terra, existe o projeto, o antigo, esse que existe é um projeto antigo. A partir de agora eles vão contratar uma empresa, essa empresa que vai elaborar o projeto. E existe a conversa para que nós possamos sentar com todo o segmento cultural para desenvolver esse projeto juntos. Esse projeto ainda não está fechado. É bom que se diga”, sustentou. 

Esse é o vereador Ronilço Guerreiro durante a 22ª Sessão Ordinária nesta terça-feira (3.mai.22). Foto: Izaias Medeiros | Câmara Municipal

Guerreiro é presidente de duas comissões interessadas no andamento – ele preside a Comissão de Cultura e a integra a Comissão de Indústria, Comércio e Inovação. Esse é um ponto interessante, pois, os verdadeiros interessados nesse projeto são empresários do sistema ‘S’, inclusive, Guerreiro citou um espaço da empresa privada: “Estive recentemente no Senac, e o Senac tem um espaço fantástico de tecnologia e inovação.  E inovação também é Cultura e inovação e tecnologia também podem caminhar juntos. Então, que quero dizer ao senhor, nós estamos convocando uma audiência pública com o setor cultural para discutir”, anunciou, apesar de atrasado. 

TERRA E O ESPAÇO CULTURAL

Além de Adriane Lopes, a Subsecretária Municipal de Gestão e Projetos Estratégicos, Catiana Sabadin Zamarrenho e a Subsecretária Adjunta de Gestão e Projetos Estratégicos, Ana Virgínia Knaue, assinam a responsabilidade pelo projeto, apesar disso é o ex-secretário Rodrigo Terra que sempre foi o maior entusiasta em ‘pegar’ o prédio da Cultura para esse empreendimento.

A proposta do ‘Parque Digital’, nasceu numa secretaria bem distante da Cultura – a Secretaria Municipal de Inovação, Desenvolvimento Econômico e Agronegócio (Sidagro), que até 31 de março foi comandada por Rodrigo Terra, que deixou o cargo, para coordenar a campanha do PSD, sobretudo, do agora ex-prefeito Marquinhos Trad — ele renunciou ao mandato em 5 de abril, para disputar as eleições de 2022 como candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul.

O vereador do Podemos e o ex-secretário Rodrigo Terra chegaram a falar do projeto nas redes em vídeo. Naquele momento, celebraram o anúncio, mas os artistas da cidade nem mesmo haviam sido consultados àquela altura. Veja o vídeo:

Na sua rede social, Terra publicou um vídeo onde pessoas falando em inglês celebravam a entrega do Armazém para o ‘Parque Digital’: “A Prefeitura lançou, durante o evento de empreendedorismo Know How Experience, realizado no shopping Bosque dos Ipês, a pedra fundamental do Parque Tecnológico e de Inovação de Campo Grande, a Estação Digital. 👇🏽.👇🏽.👇🏽.👇🏽. 👇🏽. 👇🏽 Planejado para ser implantado na Esplanada Ferroviária, o Parque Tecnológico se propõe a criar mecanismos de atração de empresas, em ambiente propício com a capacidade de promover o desenvolvimento de ideias inovadoras, gerando emprego e renda”, disse o agora ex-secretário.

GOMES NÃO VAI RECUAR

“Eu tomei conhecimento que existe dinheiro federal para o Armazém e que estão suspendendo [os eventos] no Armazém Cultural que tomará outros destinos. Então, fica aqui, meu presidente vereador Carlão, a minha fala, que o Armazém será defendido nessa Casa. Que use esses recursos que vieram, não é Centro de Informação? Coloque-se lá. Armazém Cultural é o único espaço que não paga para usar. Projeto nenhum vai me convencer que o Armazém tem que ter outro destino a não ser o que ele tem hoje”, finalizou Gomes.

Guerreiro se comprometeu a marcar uma audiência pública para ouvir a Classe artística, argumentando que o projeto ainda está aberto, apesar de já ter sido lançado.

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