Anderson Bosh, com auxílio de colegas, fazia a montagem das galeria no momento dessa imagem. Ele mostrou algumas de suas telas que estarão expostas. Foto: TeatrineTV

Premiado, Anderson Bosh realiza exposição censurada há 27 anos na Capital

O ‘multiartista’ Anderson Bosh realiza às 19h desta terça-feira (26.jul.22), o vernissage de abertura de sua exposição “Demiurgia” – série: ExerSexies, na Galeria de Vidro, Avenida Calógeras, Centro de Campo Grande (MS). Ele é um dos artistas premiados no 1º Prêmio Ipê de Artes Visuais, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur). Mostramos aqui no TeatrineTV, recentemente, a exposição de abertura do prêmio.

A exposição versa sobre suas próprias descobertas sexuais e foi censurada em 1995 pelo Espaço Cultural Banco do Brasil, antigamente instalado na 14 de julho. “Eu sou um homem intersexual – antigamente chamado de “hermafrodita”. Levei muitos anos para compreender meu gênero, minha sexualidade, e minha performance de gênero e sexualidade, neste percurso fui chamado e tratado como aberração, abominação, erro, invertido e esquisito, desde  a escola primária até a universidade onde cursei Artes Visuais. Minha obra sempre foi sobre mim mesmo, uma tentativa desenfreada de me reconhecer, é um dos caminhos foi entender a performance e a narrativa sexual humana sem amarras ou condicionadas ao afeto, ao amor, a religião ou filosofias pessoais”, iniciou.

Anderson Bosh foi um dos contemplados no 1º Prêmio Ipê de Artes Visuais. Foto: TeatrineTV

Filho e neto de costureiras e quinto dos seis filhos homens da família Bernardes Sanches, ainda adolescente, Bosh passou a desenhar as roupas para vestir a família em festas e eventos, bem como suas próprias roupas, confeccionadas pela sua mãe, com quem, posteriormente, aprendeu a costurar. “Eu iniciei nas artes ainda criança e desde então a arte me deu muita força, caminhos e compreensão de quem eu era e poderia ser. É uma satisfação imensa poder revisitar essas obras todas, atualizá-las e expô-las depois de mais de 25 anos daquele episódio que considero traumático quando tive uma exposição cancelada no extinto Espaço Cultural Banco do Brasil”, comentou.

Anderson Bosh, com auxílio de colegas, fazia a montagem das galeria no momento dessa imagem. Ele mostrou algumas de suas telas que estarão expostas. Foto: TeatrineTV

Serão expostas 10 telas pintadas em 1995, juntamente com 10 esculturas, as peças integravam a exposição intitulada, na época, de “Sexualidade Humana”, que foi interrompida 4 horas antes do vernissage no espaço do Banco. “Apresentei uma proposta de exposição com portfólio e foi aprovada, no entanto tive a exposição cancelada horas antes de sua abertura, as alegações apesar de cordialmentemente apresentadas eram de cunho moral e conservador, característica da sociedade e da instituição na época, e olha que eu já havia feito outras duas exposições de outras coleções nas galerias deles. Lembro que eu estava muito animado para a exposição em especial, dada a importância de sua abordagem, mas parece que eu vivia muito à frente do meu tempo. Foi assustador, avassalador e traumático”, considerou. 

Anderson Bosh explicou que telas versam sobre suas descobertas sexuais. Foto: TeatrineTV

Desde aquela época essa coleção não voltou a ser exposta. “Fui censurado, hoje entendo que o ocorrido era puramente censura. Fui reprimido da única maneira que sabia me comunicar: a arte. Minha abordagem a partir de então percorreu outros caminhos e me exilei (ou fui exilado) das artes visuais, e mesmo assim vendi ainda algumas obras e esculturas da série, hoje restam 15 telas em acrílico (5 in progress) e 8 esculturas que exponho na nova série intitulada “ExerSexies”, contou. 

Seres musculosos sem cabeça, são, para a Bosh a idealização de um corpo masculino, que em sua concepção não são os corpos da maioria das pessoas. Foto: TeatrineTV

Para o artista, tal censura, deliberadamente preconceituosa e agressiva, repercutiu de forma avassaladora na sua trajetória. Bosh disse que deixou de participar regularmente de atividades de artes visuais, tendo pequenas e sazonais aparições em salões e exposições. Seu trabalho ficou concentrado na criação de peças gráficas durante anos, no entanto seu acervo cresceu, pois apesar de não mostrar, continuou produzindo.

“Identidade de gênero, expressão de gênero, manifestação e performance de gênero e lugar de fala, hoje temas completamente abertos e pautados nas mais diversas instâncias da vida diária, nos anos 90 eram um completo tabu, e, eu fui gentilmente convidado a me calar”, detalhou.

Será exposta essa tela “autorretrato” do artista. Foto: TeatrineTV

Em 2022, sendo um dos premiados no 1º Prêmio Ipê de Artes Visuais, Bosh revisitou sua coleção original “Demiurgia” que sustenta as séries “Sexualidade Humana”, “Auto-Retrato” e “Origem”, atualizando e performando as obras em consonância com sua identidade, expressão de gênero, filosofia de vida e seu posicionamento existencial enquanto sujeito e artista.

Hoje intitulada “ExerSexies”, as telas receberam novo tratamento de cor, textura e palavras de ordem que marcaram sua trajetória pessoal e artística. “Eu precisei escrever essas palavras que me marcaram. Já quis ser forte e me disseram que eu era um fraco. Quando me empoderava, me chamavam aberração… então, precisei gravar nessas telas essas palavras que significam muito para muitas pessoas”, disse. 

Telas aguardavam serem dependuradas para exposição. Foto: TeatrineTV

As formas de suas obras, segundo Bosh, tem referência direta ao “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. “Eu vejo aquele ser humano ‘deformado’, é como eu me senti por anos, como errado, desajustado. Eu pego aquela referência para criar a ‘Demiurgia’, inserindo aqui a minha discussão. Isso são os ‘Aboapurus fazendo sexo humano de diversas maneiras’. Tenho o trabalho de minha pincelada, que a faço como uma dança. É uma performance. E essas linhas fortes com cores vivas que tem suas significações individuais”, comentou. 

Vernissage da exposição será às 19h desta terça (29.jul), com direito a espumantes e quitutes. #teatrinetv
Esse é Anderson Bosh segurando uma de suas esculturas feitas em 1995, ano em que foi censurada pelo Banco do Brasil. Foto: TeatrineTV

O artista completou dizendo que em suas telas, busca constantemente por sua própria identidade e que a manifestação de gênero propiciou tudo que ele construiu enquanto artista até hoje. “Seja na moda, na literatura, no teatro, na dança, no circo, no cinema ou nas artes visuais. Essa ânsia por falar sobre minha condição, me autoperceber e entender, me levou para o caminho da expressão, da criação, da arte, e nela, encontrei janelas e portas abertas para experimentar, propor, falar, dialogar, debater, e existir enquanto sujeito e artista”, finalizou.

Além das telas e das esculturas, Bosh disporá um acervo de 45 incluindo instalações e gravuras.

SERVIÇO

O vernissage terá início às 19h desta terça (26.jul) na galeria de Vidro e será aberto ao público. A exposição permanecerá aberta até 8 de agosto. “Demiurgia” tem classificação indicativa de 18 anos.

A Galeria de Vidro está localizada dentro da Plataforma Cultural, na Avenida Calógeras, 3015. A entrada é gratuita. 

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