Theo TWK em um feat com a MC SoulRa. Arte e foto: Divulgação

Rappers de MS lançam “TrapNojo” e avisam mercado musical sobre “artistas abduzidos”

Ganhando cada vez mais destaque nacional, os artistas de outros gêneros musicais que não do ‘sertanejo’ indicam que o mercado sul-mato-grossense precisa ampliar seus horizontes se não quiser continuar tendo seus artistas ‘abduzidos’ por agenciadores do eixo “Rio/São Paulo”.

Theo TWK em um feat com a MC SoulRa disparou uma mensagem nessa direção em seu novo clipe lançado na quinta-feira (28.jul.22), intitulado “TrapNojo”. Os artistas dizem que precisam ser “abduzidos” para trabalharem como qualquer outro gênero em Mato Grosso do Sul.  

Esse é Théo TWK no clipe “TrapNojo”. Foto: Print-tela

“Com certeza no eixo Rio/SP tem mais demanda, um artista que pretende alcançar voos maiores na sua carreira tende a se mudar para esses estados. Essa “abdução” que falamos no refrão seria a aceitação da sensação de ser visto e tratado de forma diferente pelo mercado musical”, explicou Théo em entrevista ao TeatrineTV nesta sexta (29.jul.22). 

Para a MC SoulRa, a mensagem da música é de que o Mato Grosso do Sul é diverso em culturas. “Não há aqui uma monocultura como tentam nos impor. E o de que (re)existimos, produzimos e não somos poucos. Que juntos, somando forças, construiremos uma cena impossível de não ser notada pelo resto do Brasil”, opinou.

A MC diz que a letra do ‘TrapNojo’ traduz o sentimento de artistas do RAP em MS. “De como somos vistos pelos olhos do mercado local, de como nos sentimos uma contracultura diante do que nos é imposto como bom regional e faz algumas críticas ao machismo, ao extermínio dos povos originários e a monocultura”, sustentou. 

ENCONTRO CG/DO

Essa é SoulRa, num imagem do Instagram: soulra_inha

SoulRa é MC em Dourados e Théo rapper em Campo Grande, Capital. A conexão entre os artistas começou nos bastidores de eventos. “E pelos amigos em comum também do RAP. Através desse fluxo nos aproximamos”, resumiu SoulRa. 

“Conheci o trabalho da SoulRa em um evento de Rap lá em Dourados acho que em 2018, além dela ter amigos em comum no rap, e desde então mantemos contato por rede social falando sobre música e tal”, resgatou TWK.  

O instrumental do ‘TrapNojo’ foi apresentado para ele numa sessão na Virtus Studio no ano de 2020. “O RCR me mostrou um instrumental que o Eniv tinha feito, na mesma hora lembrei da SoulRa e achei que o beat combinava com o estilo dela”, lembrou. “Fiquei cantarolando a melodia do refrão e pensando qual visão passar na letra, e de modo natural os assuntos foram vindo enquanto escrevia, eu só tinha em mente que queria falar sobre progresso até porque o próprio instrumental traz uma vibe pra cima, pensei em manter isso da minha forma (sic)”, completou.

SoulRa disse que TWK fez o convite para ela participar da música, apresentou o beat já com a parte dele escrita com refrão que ela adorou. “A identificação com a letra foi imediata, então eu já sabia o que queria escrever em seguida. Foi fácil de compor, fácil gravar e produzir porque fizemos gravação com o RCR do Virtus Studio, que é um artista do TRAP/RAP também e o beat do EnivBeats de Campo Grande, então eles compreendem com tranquilidade o que queremos transmitir e a estética do som”.

O CLIPE

“Eu abro a porteira para vacas fugir”, canta a artista SoulRa, quebrando paradigmas com no clipe e música “TrapNojo”. Foto: Print-tela

Depois de ter a música pronta, SoulRa fez o convite para TWK ir para Dourados produzirem o clipe com a produtora Punto Áureo. “Convidamos o Théo TWK para produzir em Dourados e ele veio gravar tudo num fim de semana só, numa sexta à noite as cenas dele transitando pela terra ainda perdida, as do show de calouros e da abdução. No sábado gravamos as cenas na nave espacial. Após  isso, tivemos mais um dia de gravação somente comigo e com as meninas na área rural”, contou a MC.

No clipe, abduzida, SoulRa leva um homem que acaba de chegar na Terra para um show de calouros. Foto: Print-tela

“Eu fui pra Dourados 1 final de semana, chegando na sexta em Dourados e voltando domingo pra CG [Campo Grande], basicamente a gente se reunia umas 13/14 horas e ia até meia noite. A cena que mais demorou pra gravar foi a do show de calouros do clipe, acho que terminamos umas 00:30 de gravar (sic)”, completou TWK. 

O Show conta com a participação do poeta Emanuel Marinho. Foto: Print-tela

O clipe foi inteiramente produzido em Dourados pela Punto Aureo. A Lizzi Machado assinou a direção de arte junto a produtora. “Fui figurinista junto a minha mãe, juntas formamos a marca Mina Zika, Karol Sorgi também é uma das responsáveis pelos figurinos. O roteiro é meu junto a Punto Aureo e Lizzi Machado”, destacou SoulRa. 

Veja o clipe: 

CRÍTICA AO SERTANEJO

TWK e SoulRa no clipe ‘TrapNojo’, lançado em 28 de julho de 2022. Foto: Print-tela

A letra, para SoulRa, também reforça que as mulheres estão reescrevendo suas histórias antes contadas por homens conservadores. “Através de suas próprias narrativas e vivências, na música ou em qualquer outro lugar”, apontou. 

Perguntada se a música é uma crítica direta ao gênero sertanejo, SoulRa disse que na verdade ela ouviu muito sertanejo na infância e adolescência, mas que isso também é reflexo daquilo que os cidadãos de MS têm acesso. “A maior parte das rádios locais só toca música sertaneja e dificilmente dá espaço para artistas locais de outros gêneros e culturas. E muitas dessas músicas que cresci ouvindo colocam a mulher em posição de submissão e desinteligência”, considerou. 

SoulRa após ser abduzida. Foto: Print-tela

Na letra, SoulRa faz crítica e reconstrói a história proposta na letra do “Pagode” da dupla de viola Tião Carreiro e Pardinho. Num trecho da letra composta em 1967 a dupla violeira cantava: “Eu com a minha muié/ fizemos a combinação/ Eu vou no pagode ela não vai não/ Sábado passado eu fui ela ficou/ Sábado que vem ela fica e eu vou/ (sic)”. SoulRa, em 2022 diz o seguinte sobre essa letra: “Eu mais o meu par fizemos uma combinação/ Eu vou no pagode ele enche o copão/ Nós sarra no baile, eu desço do salto/ Rebolo no palco, vamos até o chão/ Sábado passado eu fui e ele ficou/ Sábado que vem quer colar no meu show/ É meu consagrado e caminha do lado/ Se eu falo já é, ele fala fechou/ (sic)”, diz a MC. 

Artistas MC SolRa e rapper Théo TWK durante o clipe “TrapNojo”. Foto: Print-tela

 “Assumo a narrativa dizendo que ao meu lado não há um senhor, ou alguém a quem devo submissão e sim um companheiro que me respeita e se diverte comigo”, completa a artista. 

Usamos um jargão do rap para perguntar a TWK se a letra era uma “pedrada” no gênero Sertanejo. “Não digo uma pedrada direta, mas não dá pra evitar, aqui o mercado musical gira em torno do Sertanejo, naturalmente as casas de show insistem na mesma tecla”, respondeu.

Na música, SoulRa  também cita Lewis Hamilton. Então, a reportagem questionou se ela adequou a música em razão do episódio envolvendo um ato de racismo contra o piloto ocorrido recentemente, ou se já havia essa citação no trecho da letra composto por ela em que diz: “No Flow Lewis Hamilton não passa recado…”. “Escrevi no ano passado essa letra. O Lewis é uma grande referência negra e como pessoa vitoriosa para mim”, explicou a artista. 

SoulRa disse que se inspira no e pai e em mulheres artista, negras e independente da música. “Minhas maiores referências na música são meu pai, que tem uma banda de forró há 20 anos e além de professor também é produtor cultural, co-fundador do Centro de Tradições Nordestinas Asa Branca de Dourados-MS. Eu não tenho poucas referências musicais ou referências que se sobressaiam, toda mulher artista negra, artista independente, artistas do RAP, da música popular brasileira, das culturas de periferia, enfim, todos serão referências de alguma forma. Procuro ao máximo aprender e extrair o melhor de cada pessoa e produzir aquilo que eu assino de forma original”, definiu.

TeatrineTV – Nos fale sobre o refrão do “TrapNojo” que diz: “Se não sabe ficar na sua/ melhor não desacreditar/ MS em peso e essa saga continua/ bora fazer grana girar/ ilumino a noite brilho mais do que lua/ Em nóis ceis pode confiar/ o fato é que  no ato espero que eles me abduza/ tô com ideia pra trocar/ Quero ver quem vai fazer nóis recuar/ (sic)”.

No clipe, momento em que SoulRa e TWK são abduzidos. Foto: Reprodução
No clipe, momento em que SoulRa e TWK são abduzidos. Foto: Reprodução

— Esse refrão é mais um grito de autoestima e progresso, exaltando nossa arte, nossa cultura e nossa pessoa, contra toda energia que queira colocar nossa arte pra baixo. Se o cenário cultural em que vivemos não valoriza nossa arte, cabe a nós isso (sic) — concluiu TWK.

TWK acaba de chegar na Terra no clipe “TrapNojo”. Foto: Print-tela

— No clipe, satirizando de forma lúdica a vida, somos seres de outro planeta. Artistas de fato não cabem nesse mundo. Sendo artistas “alternativos” o corre para conquistar um espaço nesse mundo é dobrado. O mundo também não anda lá essas coisas, são tempos difíceis para o brasileiro e o futuro da humanidade não parece ser longínquo. Então brincamos (ou não) que se fossemos abduzidos, seria muito bom! E de fato fomos, rumo a uma missão maior (sic) — finalizou SoulRa.

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