Jô em sua última peça de teatro: "A Noite de 16 de Janeiro", que tinha sua direção. Foto: Priscila Prade

Morre Jô Soares, ícone das artes e da comunicação brasileira

Poliglota, humorista, apresentador de televisão, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator e músico brasileiro, José Eugênio Soares, famoso como ‘Jô Soares’, morreu às 3h desta sexta-feira (5.ago.22), aos 84 anos. Ele estava internado há 10 dias e faleceu num leito do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A ex-esposa do artista, Flavia Pedra Soares, comunicou o falecimento dele ainda pela madrugada, minutos depois de ele dar um último suspiro. Idoso, Jô teria sido internado para tratar um quadro de pneumonia.

“Aqueles que através dos seus mais de 60 anos de carreira tenham se divertido com seus personagens, repetido seus bordões, sorrido com a inteligência afiada desse vocacionado comediante, celebrem, façam um brinde à sua vida. A vida de um cara apaixonado pelo país aonde nasceu e escolheu viver, para tentar transformar, através do riso, num lugar melhor”, anunciou Flavia, em sua conta na rede social Instagram.

Jô apresentou de 1988 a 1999 o programa “Jô Soares Onze e Meia no SBT” e de 2000 a 2016 o “Programa do Jô na TV Globo”.

O artista era poliglota, fluente, inglês, francês, italiano e espanhol, além de ter bons conhecimentos de alemão.

Casou-se 3 vezes. 1º com Teresa Astragésilo (1959-1979); Sílvia Bandeira (1980-1983) e Flávia Junqueira (1983-1998). Ele também chegou a namorar com as atrizes Mika Lins e Claudia Raia.

O apresentador teve apenas um filho, Rafael, que morreu aos 50 anos.

NÚMEROS

Nas emissoras pelas quais passou, fez 14.138 entrevistas de 1988 a 2015. Elas aconteceram em seus programas: Jô Soares Onze e Meia, no SBT, e Programa do Jô, na TV Globo

Jô lançou quatro álbuns musicais: Norminha (1972), A.B e Outras estórias (1980), Quinteto Onze Meia (1992) e Jô Soares e o Sexteto (2000).

Atuou em 25 filmes, sendo o primeiro O Rei do Movimento (1954) e o último Giovanni Improtta (2013).

No teatro, ele trabalhou como ator e diretor em mais de 20 espetáculos. A estreia nos palcos foi em O Auto da Compadecida, em 1959. O último espetáculo estrelado por ele foi “A Noite de 16 de Janeiro”, com um texto de Ayn Rand.

ÚLTIMA PEÇA

Jô Soares em cena na sua última peça teatral da carreira, intitulada: “A Noite de 16 de Janeiro”. Foto: Priscila Prade

No palco ao lado de Jô estiveram por último: Cassio Scapin, Erica Montanheiro, Felipe Palhares, Giovani Tozi, Guta Ruiz, Luciano Schwab, Kiko Bertholini, Marco Antônio Pâmio, Milton Levy, Mariana Melgaço, Nicolas Trevijano, Norival Rizzo, Paulo Marcos, Ricardo Gelli e Tuna Dwek. Esse espetáculo estreou em São Paulo em dezembro de 2020.

Os últimos atores a dividirem a cena com Jô Soares, no espetáculo ‘A Noite de 16 de Janeiro’, dirigido por Jô. Foto: Reprodução

Jô também escreveu, ao menos, 10 livros: Os dilemas do Fantasma e do Capitão América (1972), O Astronauta Sem Regime (1983), Humor Nos Tempos do Collor (1992), A Copa Que Ninguém Viu e a Que Não Queremos Lembrar (1994), O Xangô de Baker Street (1995), O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998), Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005), As Esganadas (2011), O Livro De Jô – Uma Autobiografia Desautorizada – Vol. 1 (2017) e O Livro De Jô – Uma Autobiografia Desautorizada – Vol. 2 (2018). As obras mais populares são O Xangô de Baker Street, que virou filme, e O Homem que Matou Getúlio Vargas.

Além de o título remeter à data de seu aniversário, ‘A Noite de 16 de Janeiro’, o espetáculo marcou a volta de Jô Soares aos palcos como ator, cujo último espetáculo havia feito em 2007, com adaptação de poemas de Fernando Pessoa em Remix em Pessoa. “Estava pesquisando textos, procurando algum que me levasse de volta aos palcos como ator, quando esse me chamou atenção justamente pelo título. Decidi ler e adorei. Ayn Rand é genial e sou fascinado por histórias de tribunal. Também me chamou atenção o fato da plateia participar como júri. Então, achei o que queria,” comentou Jô em 2020 que, além de atuar, também assinou a tradução e direção do espetáculo.

Da russo-americana Ayn Rand, ‘A Noite de 16 de Janeiro’ é um peça que se passa em 1934 e que encena o julgamento de um homicídio. A corte ouve o caso de Andrea Karen, uma ex-secretária e amante do empresário Bjorn Faulkner, de cujo assassinato ela é acusada. A peça não retrata diretamente os eventos que levaram à morte do empresário. Em vez disso, os jurados devem confiar em testemunhos das personagens para decidir se Karen é culpada ou não. O final do espetáculo depende do veredito. São duas possibilidades de final: ela é acusada ou absolvida, conforme a decisão de um júri formado por 12 pessoas escolhidas da plateia.

Essa foi a segunda montagem do texto no Brasil. Jô chegou a assistir a primeira, em 1949, com Paulo Autran e Nydia Licia no início do TBC. Junto com Matinas Suzuki Jr, com quem também escreveu as memórias de “O Livro de Jô – uma autobiografia desautorizada”, Jô Soares traduziu o texto desta encenação, como costuma fazer com todos os textos estrangeiros que dirige, pois
afirma que sua direção já começa ali, na adaptação da peça.

FIEL PARCEIRO

Luis Alexander Rubio Bernardes, que ficou conhecido como o garçom Alex no programa de Jô Soares, lamentou a morte do apresentado. Ele compartilhou uma foto dos dois juntos, com um emoji “chorando”.

Alex e Jô Soares (Foto: Reprodução/Instagram)

A imagem era de uma publicação de março de 2021 de Alex, em que ele lembrava um pouco de sua carreira ao lado de Jô, com quem protagonizou muitos momentos divertidos na TV ao servir bebidas aos entrevistados. “Para quem não lembra de mim, sou Alex. Trabalhei no programa do Sr. Jô Soares durante 27 anos como garçom, eu servia café, água e refrigerante para os convidados… E para os mais ‘nervosinhos’ dava algumas bebidas mais fortes”, brincou o ex-garçom.

“Então, tive que me aperfeiçoar e aprender sobre drinks nacionais e internacionais… Foi aí que me apaixonei por esse fascinante mundo dos drinques”, completou na época Alex, que atualmente tem um canal no YouTube, onde ensina a fazer drinques diversos.

APOSENTADORIA

Foto postada por Jô em seu Twitter já depois de sua aposentadoria.

Após deixar a principal emissora do país , desde então, Jô vivia uma vida reclusa no bairro luxuoso do Higienópolis, na capital paulista, fazendo raríssimas aparições pública.

Seus maiores sucessos foram na Globo, no início da década de 1980, onde ele estava à frente do humorístico conceituado “Viva o Gordo” (1981-1987), onde trouxe inúmeros personagens cômicos de sucesso ao público, como o divertido Capitão Gay.

No “Jornal da Globo”, entre 1983 a 1987, Jô Soares foi um grande comentarista sobre a cultura brasileira. No entanto, a proposta de Silvio Santos chegou a ele para ingressar para o elenco do SBT. No canal, ele teve o mesmo formato de seus quadros humorísticos com o “Veja o Gordo” (1988-1990).

Diverso, um dos artistas mais completos que o país já concebeu, Jô deum uma virada em sua vida quando propôs um talk-show, ao estilo dos programas de entrevistas americanos, ao patrão Silvio Santos. Diariamente, Jô Soares encarou o desafio do “Jô Soares Onze e Meia”, se tornando um sucesso tão estrondoso, que terminou por ser convidado de volta à Globo como
apresentador do “Programa do Jô”.

Na Globo era sucesso absoluto após as novelas. No local comandou seus programas de entrevistas por mais de 28 anos ininterruptos e se tornou uma grande referência
do formato.

Após aposentar-se, em 2017 Jô falou à Veja pela primeira vez sobre sua saída da TV. “Estava na hora. Conversei com o Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Globo e disse: ‘Eu não tenho mais o mesmo prazer que eu tinha’. Ele respondeu: ‘Quanto tempo você acha que precisa para terminar o programa, para ele não cair de uma forma melancólica?’. Demos dois anos. Terminei e foi um alívio”, disse, completando estar realizado.

Na mesma entrevista, apesar do que a mídia afirmava, Jô disse que tinha uma ótima relação com a emissora na qual se consagrou: “Minha relação com eles é ótima. Sou amigo do Roberto Irineu, quando ele ainda era o Robertinho. A gente jantava toda semana juntos. A Vanessa Pina, dos Recursos Humanos, veio aqui, ano passado, e disse: ‘Vamos fazer o seguinte: vamos fazer uma coisa assim de dois anos você ganhando…’. Eu falei: ‘Não, não quero mais nada’. Mas meus amigos sugeriram de propor um ano de contrato sabático, como as grandes empresas. Claro, ganhando menos, mas fazendo menos”, afirmou, na época à Veja.

*Em atualização…

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