Atriz da novela ‘Pantanal’, Lígia Tristão Prieto: “Capital é muito machista e ultrapassada”

Com 22 anos de carreira, a atriz Lígia Tristão Prieto, de 34 anos, única mulher de Campo Grande a ter uma participação na novela Pantanal, afirma que o mercado de arte na Capital ainda é muito machista por ter a maior parte das produções feitas e atuadas por profissionais homens. 

Em entrevista ao TeatrineTV, a atriz afirmou que ser uma artista mulher em Campo Grande é um desafio diário porque na maior parte do tempo as mulheres não ocupam o lugar de criação dos produtos audiovisuais. Além disso, as as atrizes locais também são preteridas em relação às profissionais de outros cantos do Brasil. 

“Vamos espetáculos em cartaz somente feito por homens. Nas produtoras de audiovisual nós não ocupamos de fato o lugar da criação, ou até mesmo da cena. Quando precisam de uma atriz para pagar bem trazem de outras cidades e não oportunidade para as próprias atrizes assumirem o trabalho que de fato sabem fazer”, analisa Lígia. 

A profissional também aponta que esse cenário é consequência do preconceito que a população da cidade ainda carrega, que foram arraigados com base nos padrões impostos de uma sociedade ultrapassada e elitizada. 

Ao que completa dizendo que, em consequência disso, poucas mulheres vivem de arte em Campo Grande, sendo que, de acordo com ela, até editais para destinação de verbas, por exemplo, acabam selecionando mais homens que mulheres. 

“É uma luta constante para conseguirmos de fato viver somente de arte, obviamente que isso é mais pesado ainda para as minorias. Precisamos de políticas que apoiem e acreditem nas mulheres artistas”, aponta.

Em relação aos grandes centros, onde o machismo também é uma realidade, já que é uma sistematização e uma cultura ainda muito enraizada na sociedade, Lígia explica que nesses lugares o incentivo para as mulheres chegou mais rápido. 

“A própria Pantanal é dirigida por uma mulher e por um homem, cada um assumindo sets que funcionam ao mesmo tempo. É importante começarmos a dar os lugares devidos para as coisas por aqui. É um processo longo que precisa ser modificado. A arte deveria tratar de humanidades mas até agora foi construída inteiramente por homens. Temos atrizes excelentes aqui, é um desperdício elas não estarem nas telinhas e nos palcos dessa cidade e do Brasil”, relata a atriz. 

Além do apoio de políticas voltadas para o incentivo de artistas mulheres, a atriz também aponta que a sociedade como um todo precisa abraçar a arte e entender que é ela que amarra tudo e faz as pessoas pensarem, sendo que não é apenas uma responsabilidade restrita ao poder público dar essa vazão às vozes femininas dentro do meio artístico. 

“O artista não caminha sozinho, e a cidade precisa de nós, é mais que justo que a cidade pague por isso, respeite e amplie isso. O artista nunca cresce individualmente, a cidade cresce junto.”

Apesar de todos esses vieses apontados pela atriz, ela afirma que a experiência de participar de uma novela com projeção nacional e que caiu no gosto do público com um nível de aceitação bem elevado representa um grande passo para sua carreira. 

A atriz participou da trama no capítulo 114, que foi ao ar no dia 06 de agosto, pela Rede Globo. Na novela, Lígia divide a cena com a atriz Isabel Teixeira, que vive a personagem Maria Bruaca, agora Maria Chalaneira, e interpreta a mãe de um garotinha, que embarca junto dela na chalana de Maria. 

No diálogo as personagens conversam sobre ter filhos, já que Bruaca diz que seu sonho era ter seis filhos, mas que na época não conseguiu por não viver na embarcação ainda. 

“Depois de 22 anos de estrada, ser convidada pra fazer, achei carinhoso demais com a minha carreira. É muito bonito ver acontecer, atualmente acredito que seja o maior projeto artístico do país, com tanta repercussão assim. A novela tá linda, delicada, com um olhar diferente e potente voltado para questionamentos sobre respeito e afeto”, relata.

Lígia ainda fala que, além de ser uma experiência profissional, sua participação na novela ainda trouxe diversos aprendizados, sendo que um deles é aceitar que nem sempre as coisas serão como o planejado, mas que isso faz parte de toda a experiência na arte

“Uma coisa engraçada foi perceber que não importa o tamanho [do projeto], os imprevistos sempre vão acontecer. Acredito que a experiência faz a gente ao mesmo tempo entender que queremos chegar a perfeição dentro de alguns trabalho, mas que a perfeição é justamente aceitar os improvisos e saber dançar com eles. Isso é a cena, o resultado do encontro, de caminhos que vão surgir.”

Por fim, a atriz também lembra que, acima de tudo, a arte trata de humanidade, mas até o momento a maioria dos lugares pertence aos homens, o que faz mulheres muito talentosas terem seus trabalhos diminuídos ou suas capacidades ignoradas.

“É importante começarmos a dar os lugares devidos para as coisas por aqui. É um processo longo que precisa ser modificado. A arte deveria tratar de humanidades mas até agora foi construída inteiramente por homens. Temos atrizes excelentes aqui, é um desperdício elas não estarem nas telinhas e nos palcos dessa cidade e do Brasil.”, conclui. Veja a cena feita pela atriz sul-mato-grossense:

“Esta reportagem foi produzida com apoio do programa Diversidade nas Redações, da Énois, um laboratório de jornalismo que trabalha para fortalecer a diversidade e inclusão no jornalismo brasileiro. Confira as metodologias na Caixa de Ferramentas

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